Sábado, 2 de Agosto de 2014

 

 

O Sr. José, personagem principal de “Todos os Nomes”, é auxiliar de escrita numa Conservatória Geral. Andará na casa dos cinquenta e, para além do trabalho rotineiro, nada de interessante acontece na sua vida.

É um solitário que vive paredes meias com a Conservatória, sem família nem amigos.

Apesar de cumpridor e escrupuloso, nunca subiu um degrauzinho na rígida hierarquia do serviço.

O seu único passatempo é recortar e coleccionar biografias de gente famosa mas, quando no meio das fichas dessas pessoas encontra um verbete de uma mulher comum, foca toda a sua atenção na vida dessa mulher… e a vida do Sr. José transforma-se radicalmente: o humilde funcionário entusiasma-se na procura “do outro”.

 

Gostei muito desta estreia na leitura de José Saramago.

A escrita, aparentemente complexa, é única. As frases são enormes mas nem por isso fazem perder o fio à meada. Não há aviso ortográfico para os discursos directos, os diálogos simplesmente começam com a maiúscula no correr do texto, sem mudança de linha, sem travessão, sem  aspas.

Adorei e ri com o número exagerado de exemplos citados, como esta passagem sobre as colecções do Sr. José: “uma vez que lhe é indiferente que se trate de políticos ou de generais, de actores ou de arquitectos, de músicos ou de jogadores de futebol, de ciclistas ou de escritores, de especuladores ou de bailarinas, de assassinos ou de banqueiros, de burlões ou de rainhas de beleza.” ou uma página quase inteira com definições de como eram constituídos os primeiros monumentos funerários.

Depois há a análise subliminar do autor à condição humana que nos deixa a reflectir.

Voltarei a Saramago, não há dúvida. 

 


publicado por numadeletra às 17:23 | Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

21 comentários:
De Pec a 2 de Agosto de 2014 às 20:40
Não sei porquê, ocorre-me sempre Bartleby the scrivener.


De Manuel Cardoso a 3 de Agosto de 2014 às 00:32
É realmente um livro delicioso, pelo simbolismo,pela reflexão subliminar sobre a condição humana, a que muito bem te referes e ainda pelo fino sentido de humor de Saramago.
Não sei porquê, não é um dos livros mais divulgados do nosso génio mas, na minha opinião, é um dos melhores.


De numadeletra a 1 de Setembro de 2014 às 17:55
Manuel Cardoso,

Começo por pedir desculpa pela resposta tardia (com férias pelo meio e tudo...).

Não tendo termo de comparação (já que é o primeiro que leio de Saramago), posso dizer que adorei o livro e concordo que devia ser mais publicitado.

Um abraço.


De numadeletra a 1 de Setembro de 2014 às 17:54
Olá Pec.

Esse ainda não li.

Boa semana!


De Sara a 3 de Agosto de 2014 às 01:09
Achei este livro um pouco diferente dos outros que li dele...Um bocado negro, quase kafkiano, não é o melhor da humanidade que está ali descrito...Toda aquela mecanização do indivíduo e a solidão. E com um bocado de policial também....Mas claro é um livro muitíssimo bem escrito, cheio de significado. Ler Saramago é sempre um prazer. Essa parte dos exemplos faz-me lembrar no Memorial onde ele descreve todas as congregações da procissão, uma por uma...O que me ri com isso.

Cumps!


De Manuel Cardoso a 4 de Agosto de 2014 às 00:03
Sim, Sara, claras referências kafkianas.


De numadeletra a 1 de Setembro de 2014 às 17:56
Estou ansiosa por ler o “Memorial do Convento”!

Obrigada pelo comentário Sara e desculpa responder só agora.

Um abraço.


De pedrices a 4 de Agosto de 2014 às 11:11
Uma estreia em grande, com um dos melhores! Então e para quando o Ensaio??


De numadeletra a 1 de Setembro de 2014 às 17:57
O facto de ter visto o filme corta-me um pouco a vontade de o ler (em relação a filmes adaptados de livros, prefiro começar pelos livros)... mas lá hei-de chegar.

Um abraço, Pedro.


De Veruska a 4 de Agosto de 2014 às 13:53
É o primeiro???!!!! Isso é que me espanta. Eu gostei de quase todos os que li (e já li quase todos). :)


De numadeletra a 1 de Setembro de 2014 às 17:57
Comecei tarde mas dá um gozo enorme descobrir um escritor como Saramago!


De Miguel Alexandre Pereira a 4 de Agosto de 2014 às 19:08
adoro Saramago, é um escritor que me enche as medidas. o seu talento é assombroso. já li diversos livros dele, curiosamente este ainda não, mas em breve irei ter uma oportunidade de fazê-lo :)


De numadeletra a 1 de Setembro de 2014 às 17:58
Recomendo-te, Miguel.

Um abraço.


De Luísa Livros a 5 de Agosto de 2014 às 14:02
Curiosamente também foi este o meu primeiro de Saramago! ;) Tentei há alguns anos que fosse o Memorial do Convento, mas não correu bem, tendo esse mesmo livro adiado o gosto e compreensão pela leitura de Saramago! :) Felizmente voltei a tentar e desta vez com sucesso e tal como tu, irei certamente ler mais dele!! ;)

http://cemiteriodoslivroslidos.blogspot.com.ar/search/label/José%20Saramago


De numadeletra a 1 de Setembro de 2014 às 17:59
Engraçada coincidência.

O próximo livro de Saramago que quero ler é o “Memorial do Convento”. É muito difícil de arranjar porque faz parte do "Plano Nacional de Leitura", mas felizmente já o tenho.


De sweet a 8 de Agosto de 2014 às 16:38
Oh fico tão feliz por teres gostado!
A parte do cemitério é a minha preferida :)


De numadeletra a 1 de Setembro de 2014 às 18:00
É genial, sweet.


De Helena a 12 de Agosto de 2014 às 20:17
José Saramago é para mim único. A escrita que vai contra tudo o que é regra, sem se perder em descrições, é direta e facilmente perceptível. Cada romance com uma história inimaginável. Para mim um dos mais espetaculares, As Intermitências da Morte. Recomendo.
Obrigada pelos posts.


De numadeletra a 1 de Setembro de 2014 às 18:00
Eu é que agradeço o interessante comentário, Helena.

Espero que continue a visitar e a deixar comentários no Numa de Letra.

Vou esforçar-me por não desiludir.

Um abraço.


De Denise a 10 de Dezembro de 2014 às 10:01
Grande livro, este! :)


De numadeletra a 14 de Dezembro de 2014 às 15:18
Também achei!


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