
Fui a primeira a entrar no avião, levando numa das mãos o habitual troley, companheiro destas viagens profissionais que faço há anos, no ombro o saco do computador e na outra mão “O Perfume da Savana”, que li até à hora do embarque.
Ao ser cumprimentada por um dos membros da tripulação, reparei quanto se curvava na tentativa de descobrir o título do meu livro. Não resistiu e disse:
- “O Perfume da...”
- “Savana”, rematei com um sorriso em troca de:
- “É muito bom, conheço bem...”.
- “Conhece o livro?”, perguntei eu.
- “Conheço a Savana”.
Mais passageiros começaram a aproximar-se, fui andando até ao 16F enquanto, olhando para trás, respondi ainda:
- “Eu não conheço a savana mas o escritor é meu amigo...”.
Pela 3ª ou 4ª vez nestas últimas deslocações que fiz pela Tap, chegada a minha vez de ser servida, a assistente de bordo questiona-me:
- “Pediu uma refeição vegetariana, não foi?”
- Abanei a cabeça e tentei mostrar uma expressão de déjà vu, acrescentando:
- “Penso que a minha ficha tem essa opção como preferência mas, apesar de adorar comida vegetariana... tenho de alterar esta informação.”
- “Se quiser eu altero, só tem de me dar o cartão de embarque”, sugere-me simpaticamente, além de me pôr também à vontade para eu ficar com a refeição normal, em vez da sandwich vegetariana.
Respondo que não faz mal, fico com a vegetariana e aceito que mude a informação do cartão, para futuro.
Ainda que minutos antes, no aeroporto de Zurique, tivesse almoçado uma salada e soubesse que no jantar dessa noite, já em casa, me esperaria outra, tentei resignar-me àquela sandocha recheada com uma folha de alface, 2 rodelas de pepino e outras tantas de cenoura. Bom... desisti, ao fim de 2 trincas.
Fechei os olhos e pensei como seria o perfume da savana que o assistente de bordo me disse tão bem conhecer. Do perfume que refere não ser o mesmo da história que estou a ler e deste senhor, em contrapartida, não conhecer Isabel nem o seu aroma.
Para minha surpresa, repentinamente senta-se na cadeira da coxia e estende-me o meu bilhete, acrescentando que já estava alterado.
Mostra-me então o verso, onde escreveu: “Burututu” e acrescenta:
- “Conhece este chá?”
- Não, respondi.
- “Então tome que é bom para ajudar a limpar, vai fazer-lhe bem. A menina tem o fígado gordo.”
- Intrigada, perguntei:
- Como sabe?
- “Eu vejo isso... Pelas energias... sei muita coisa...” (acompanhou o estranho esclarecimento com um gesto da mão à frente do meu rosto e com um certo ar de mistério).
- OK, obrigada, vou pensar nisso.
Entretanto olha na direcção de “O Perfume da Savana” que continua pousado na cadeira que nos separa, e diz:
- “Este senhor, Ludgero Santos, é de onde? Trabalha na televisão?”
Repondi-lhe que era de Gaia.
- “Mas viveu em África...?”
- Sim! Viveu, foi feliz e conhece bem.
- “Eu já li uma série de livros ligados a África. Vou ler este”, diz-me.
- Mas vai ter dificuldade em encontrá-lo, não está à venda nos circuitos habituais. Eu falo com o Ludgero, quer?
Ainda no meu bilhete de viagem escreve o seu enderço de e-mail e, acto contínuo, mostra-mo, descortinando as 3 primeiras letras do seu nome.
Guardo-o entre as primeiras páginas do livro e o (...) levanta-se, porque está a trabalhar.
À saída, fi-lo saber que brevemente daria notícias.
Em jeito de remate e porque, uma vez mais o tema foi a escrita e os livros, é extraordinário pensar no impacto que têm na vida das pessoas e quantas vezes as aproximam.
Ler é um acto solitário que exige concentração, mas o que daí se aprende é motivo bastante para conversas informais ou mais profundas, conforme os temas, e para trocas de experiências sempre enriquecedoras.
Afinal tratava-se apenas de mais um vôo de trabalho, acabou por ser um episódio interessante que ainda hoje recordo com simpatia.






alguém algures... numa de leitura (iii)
breakfast at tiffany’s (boneca de luxo)