Quarta-feira, 6 de Junho de 2012
 

A Harpa de Ervas, de Truman Capote.jpg

    

“Delicioso” é o melhor adjectivo que encontro para resumir, numa só palavra, “A Harpa de Ervas”, de Truman Capote.

 

Esta narrativa de poucas páginas foi a minha estreia na literatura de Truman Capote e no novo Acordo Ortográfico.

Fiquei fã do autor e confirmei a minha relutância em relação ao Acordo Ortográfico. Mesmo assim, custou-me menos digerir este "crime" literário, do que previa antes de o experimentar... Só me apercebi que estava perante um exemplar da nova forma de escrita, depois de concluir que os tês e os pês omitidos nalgumas palavras eram gralhas em demasia para virem apenas da Editora. (Felizmente não havia "minissaias" nem “hei de” ou “hão de” nesta narrativa, caso contrário o trauma era certo).

 

Volta e meia apareciam palavras que o meu cérebro, instintivamente, identificava como sendo erros ortográficos, levando-me aos longínquos tempos da Escola Primária. Recordei os meninos da minha sala que apanhavam reguadas da Professora quase de ânimo leve, de tão habituados estarem a essa rotina e de ser também normal, para eles, receberem os seus ditados e cópias repletos de correcções a vermelho.

“20 erros e 14 faltas”, “28 erros e 9 faltas”, dizia a Senhora Professora com ar severo e em voz alta, para que toda a classe ouvisse bem.

Não sei se essas lições ficaram na memória desses meninos, mas pouco interessa para o caso. Afinal, duas ou três décadas depois, a Professora não levou a melhor...

Segundo dita o novo Acordo, muitos dos erros ortográficos da altura são agora a maneira correcta de escrever e o grupo dos bons alunos que não dava erros, terá de reaprender a escrita.

Também este texto estaria cheio de erros e teria um resultado quase igual ao dos meninos maus alunos da Escola Primária, caso fosse avaliado pelo novo Acordo Ortográfico.

Mas como, felizmente, já não tenho de passar por provas de cópias, ditados e redacções, nem o meu trabalho obriga a escrever segundo as regras deste bizarro Acordo, vou continuar a pôr em prática o que aprendi desde tenra idade. Pode parecer teimosia, mas não é. É uma questão de amor. Um grande amor pela língua materna, pelas raízes e até pela Pátria (que me perdoem os meus irmãos brasileiros).

 

Em contrapartida, na sua versão original da Língua Inglesa, ainda hoje “A Harpa de Ervas” se mantém fiel ao que, em 1951, Truman Capote escreveu. Não houve Acordos Ortográficos nem evoluções da escrita, nestes últimos 61 anos.

 

Formas de escrita aparte, gostei tanto deste livro que o li num ápice, e por pouco de uma única assentada... Só não o fiz, porque me parece que começar e acabar uma leitura no mesmo dia pode intensificá-la no momento, mas talvez a remova da lembrança mais facilmente, a médio prazo... E eu quero guardar as memórias desta história comigo o mais possível, das personagens ternurentas que a caracterizam e que fazem acreditar e relembrar que há na terra pessoas tão boas que o resto são falácias...

 

Se servir de sugestão, oxalá gostem.

 



publicado por numadeletra às 11:03 | Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

9 comentários:
De sc a 6 de Junho de 2012 às 14:38
A ideia de correcção remete para a de norma, para o mundo do direito.
E se o «acordo» ortográfico é, do ponto de vista linguístico, uma ideia ultrapassada, parece servir para provar que democracia e estado de direito são conceitos sem qualquer validade em Portugal.
O «acordo» ortográfico não está em vigor.
Simples.
O resto é subdesenvolvimento.


De sc a 6 de Junho de 2012 às 15:01
P.S. "Não houve Acordos Ortográficos nem evoluções da escrita, nestes últimos 61 anos."
Nem nos últimos 161, em inglês ou em francês...
Quanto mais culto é o país, mais a ortografia é estável. As mudanças da língua não se dão na ortografia, mas na sintaxe e no léxico.
O acordo ortográfico do castelhano mudou 9 (nove) palavras - uma delas é escrever Catar em vez de Qatar... - e é facultativo por uma questão de respeito pelos utentes...
Não compro livros em acordês. Não gosto de me sentir insultado e pagar, ainda por cima, por isso.


De ludgero s a 6 de Junho de 2012 às 19:27
Em todo o caso quer com acordo ortográfico ou sem ele, depois da sua opinião vou comprá-lo rapidamente e lê-lo.
Se aparecer por lá algum fato ilícito, vou atribuí-lo a uma acção praticada fora da lei e nem sequer vou ponderar que a personagem de fato, pregou o calote ao alfaiate.

Cordiais saudações.


De Bic Laranja a 6 de Junho de 2012 às 20:02
Está o que diz muito bem, mas é demasiado mole. O denominado «acordo» (orto)gráfico tem de ser tratado a pontapé e à chapada, nem menos. Quanto aos seus fautores, tratá-los à bengalada era honra demais. Pau de marmeleiro nos lombos até ao cadafalso e forca. É gente vil e apátrida, capaz de vender a mãe por um prato de lentilhas ou um mero penacho no chapéu. Quanto a livros pejados de erros, fogueira com eles. Cada palavra impressa nessa forma asquerosa é um escarro e uma ofensa a qualquer português honrado.
Cumpts.


De Ashyamn a 6 de Junho de 2012 às 23:00
Subscrevo integralmente.

Já agora, convido a autora a assinar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (não é uma petição, é muito mais que isso), caso ainda não o tenha feito: http://ilcao.cedilha.net/


De golimix a 7 de Junho de 2012 às 09:59
Olá!
O "bendito" acordo ortográfico... como tenho um filhote pequeno tenho que me adaptar ao novo acordo, mas esqueço-o, voluntária ou involuntariamente, muitas vezes.

O livro parece mesmo interessante, mais um para me perder...
Achei interessante a opinião que tem acerca de se guardar para não ler o livro de uma assentada =) é precisamente o que faço quando tenho nas mãos uma leitura que me consome as ideias.

Bom feriado, a aproveitar pois vai ser a última vez que o "gozamos"


De marcia a 7 de Junho de 2012 às 16:18
Pois a mim o acordo ortográfico não me incomoda nada, não vivo agarrada ao passado e em muitas palavras parece-me ter toda a lógica que se escrevam tal qual as dizemos. Não, não sou brasileira. Já li dezenas de livros sob o novo acordo (e centenas sob o anterior). O que interessa é ler, na nossa língua ou noutra qualquer, muitos livros, de uma assentada, de duas, ou mais...
Boas leituras! Sem guerras ortográficas!


De João Carlos Reis a 19 de Maio de 2015 às 07:07
Prezada marcia,
pode não viver "agarrada ao passado", mas pode ter a certeza absoluta de que os mentores do actual aborto vivem, pois fizeram o Português recuar parcialmente ao Português dos séculos XIV e XV (quando quase não havia regras, mas apesar disso, a ortografia não alterava a fonética das palavras, o que este aborto faz), para desilusão de muitos que pensam que este aborto fez "avançar" o Idioma...


De sweet a 7 de Março de 2013 às 16:11
Eu também ABOMINO o novo acordo e não sei se seria capaz de ler um livro assim mas pronto, este parece valer a pena.
Obrigada pela sugestão :)


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