Domingo, 3 de Junho de 2012
 

Uma peripécia em torno de um livro.png

Neste momento viajo e da janela do Tap tenho ao alcance dos olhos um céu azul e um chão de nuvens brancas e fofas. Os 2 lugares ao meu lado estão vagos, de maneira que pousei no do meio “O Perfume da Savana”, meu parceiro de viagem e agradável surpresa (bom para este contexto de viagens).

Fui a primeira a entrar no avião, levando numa das mãos o habitual troley, companheiro destas viagens profissionais que faço há anos, no ombro o saco do computador e na outra mão “O Perfume da Savana”, que li até à hora do embarque.

Ao ser cumprimentada por um dos membros da tripulação, reparei quanto se curvava na tentativa de descobrir o título do meu livro. Não resistiu e disse:

- “O Perfume da...”

- “Savana”, rematei com um sorriso em troca de:

- “É muito bom, conheço bem...”.

- “Conhece o livro?”, perguntei eu.

- “Conheço a Savana”.

Mais passageiros começaram a aproximar-se, fui andando até ao 16F enquanto, olhando para trás, respondi ainda:

- “Eu não conheço a savana mas o escritor é meu amigo...”.

Pela 3ª ou 4ª vez nestas últimas deslocações que fiz pela Tap, chegada a minha vez de ser servida, a assistente de bordo questiona-me:

- “Pediu uma refeição vegetariana, não foi?”

- Abanei a cabeça e tentei mostrar uma expressão de déjà vu, acrescentando:

- “Penso que a minha ficha tem essa opção como preferência mas, apesar de adorar comida vegetariana... tenho de alterar esta informação.”

- “Se quiser eu altero, só tem de me dar o cartão de embarque”, sugere-me simpaticamente, além de me pôr também à vontade para eu ficar com a refeição normal, em vez da sandwich vegetariana.

Respondo que não faz mal, fico com a vegetariana e aceito que mude a informação do cartão, para futuro.

Ainda que minutos antes, no aeroporto de Zurique, tivesse almoçado uma salada e soubesse que no jantar dessa noite, já em casa, me esperaria outra, tentei resignar-me àquela sandocha recheada com uma folha de alface, 2 rodelas de pepino e outras tantas de cenoura. Bom... desisti, ao fim de 2 trincas.

Fechei os olhos e pensei como seria o perfume da savana que o assistente de bordo me disse tão bem conhecer. Do perfume que refere não ser o mesmo da história que estou a ler e deste senhor, em contrapartida, não conhecer Isabel nem o seu aroma.

Para minha surpresa, repentinamente senta-se na cadeira da coxia e estende-me o meu bilhete, acrescentando que já estava alterado.

Mostra-me então o verso, onde escreveu: “Burututu” e acrescenta:

- “Conhece este chá?”

- Não, respondi.

- “Então tome que é bom para ajudar a limpar, vai fazer-lhe bem. A menina tem o fígado gordo.”

- Intrigada, perguntei:

- Como sabe?

- “Eu vejo isso... Pelas energias... sei muita coisa...” (acompanhou o estranho esclarecimento com um gesto da mão à frente do meu rosto e com um certo ar de mistério).

- OK, obrigada, vou pensar nisso.

Entretanto olha na direcção de “O Perfume da Savana” que continua pousado na cadeira que nos separa, e diz:

- “Este senhor, Ludgero Santos, é de onde? Trabalha na televisão?”

Repondi-lhe que era de Gaia.

- “Mas viveu em África...?”

- Sim! Viveu, foi feliz e conhece bem.

- “Eu já li uma série de livros ligados a África. Vou ler este”, diz-me.

- Mas vai ter dificuldade em encontrá-lo, não está à venda nos circuitos habituais. Eu falo com o Ludgero, quer?

Ainda no meu bilhete de viagem escreve o seu enderço de e-mail e, acto contínuo, mostra-mo, descortinando as 3 primeiras letras do seu nome.

Guardo-o entre as primeiras páginas do livro e o (...) levanta-se, porque está a trabalhar.

À saída, fi-lo saber que brevemente daria notícias.

 

Em jeito de remate e porque, uma vez mais o tema foi a escrita e os livros, é extraordinário pensar no impacto que têm na vida das pessoas e quantas vezes as aproximam.

Ler é um acto solitário que exige concentração, mas o que daí se aprende é motivo bastante para conversas informais ou mais profundas, conforme os temas, e para trocas de experiências sempre enriquecedoras.

Afinal tratava-se apenas de mais um vôo de trabalho, acabou por ser um episódio interessante que ainda hoje recordo com simpatia.

 



publicado por numadeletra às 17:44 | Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

28 comentários:
De marcia a 3 de Junho de 2012 às 18:15
Uma bela história sobre a magia dos livros. Pesquisei o chá de burututu, É de um planta africana utilizado para combater as doenças hepáticas. Será que o Ludgero o conhece?


De zorro, numa de mundongueiro a 4 de Junho de 2012 às 02:48
Se conhece ou não não sei. Eu conheço, e muito bem.
Eficaz em doenças hepáticas, e não só. Sumamente eficaz em "doenças" problemáticas e inoportunas em senhoras que por descuido, decerto, eheh... lá viam as regras irem à vida.
Segredos de África muito úteis na ocasião, hoje ultrapassados pela pílula salvadora.
Vou ler esse livro seguramente.


De Veruska a 4 de Junho de 2012 às 09:00
Até eu fiquei com vontade de ler o Perfume da Savana.

Alturas houve, em que planeei fazer uma viagem por África, percorrendo vários países, pernoitando no delta do Okavango... infelizmente, não consegui! :(

Agora que sou mãe de um bebé nestes tempos de crise, penso que jamais conseguirei concretizar este sonho.



De numadeletra a 4 de Junho de 2012 às 10:49
Olá Veruska,

Agora pode não ser oportuno mas penso que a viagem a África deve constar na sua lista de sonhos a concretizar... Porque não?
Até lá pode ir conhecendo e preparando essa viagem através de “O Perfume da Savana” e afins.

Em contrapartida, já foi ao Japão, onde eu adorava ir, não foi? E que tal?


De Veruska a 4 de Junho de 2012 às 19:53
Sim.

Passei 3 semanas no Japão em férias, começando em Osaka e terminando em Tóquio.

Absolutamente fantástico! Recomendo.



De numadeletra a 5 de Junho de 2012 às 09:20
Que sorte!!... Está na minha lista de sonhos a concretizar ;-)


De numadeletra a 4 de Junho de 2012 às 10:47
Bom dia zorro, numa de mundongueiro

É impressão minha ou, tal como o Ludgero, também tem uma costela Africana?

Faz bem em ler “O Perfume da Savana”, quem sabe não o fará reviver bons momentos passados em África.


De numadeletra a 4 de Junho de 2012 às 09:12
Márcia:

Na última 6ª feira também tiveste uma peripécia engraçada, ligada aos livros... Gostei de ver a tua expressão quando descobriste aquele livro :-)

http://planetamarcia.blogs.sapo.pt/460945.html

Quanto ao "Burututu", cá para mim o Ludgero conhece... O que é que o nosso amigo não saberá de África??


De marcia a 5 de Junho de 2012 às 00:30
Feliz coincidência. Pode parecer mórbido mas tenho-me divertido como livrinho.
Cheira-me que o Ludgero conhece o Burututu.


De ludgero s a 5 de Junho de 2012 às 21:39
Olá Márcia.
Claro que conheço! Aliás, esse e muitos mais.
África dos seus mistérios e segredos,
dos seus feitiços e silêncios,
dos seus tam-tans e suas gentes
África, do emergir à nossa era,
berço da nossa Eva.
E na quente noite africana.
silenciosa e calma,
o luar derramava prata.

Cordiais saudações


De Jorge Soares a 5 de Junho de 2012 às 17:09
É verdade que os livros aproximam as pessoas.. eu estou a ler o livro, está a ser uma leitura lenta, porque entretanto a minha filha de 12 anos que é uma leitora compulsiva, pegou nele, leu e arrumou... andou umas semans perdido, até que voltou a ser desarrumado... ontem voltei à leitura.

Se vir o Ludgero, de-lhe por favor um abraço de parte do Jorge Soares, e diga-lhe que a minha filah adorou a sua escrita e que eu vou pelo mesmo caminho

Jorge Soares


De numadeletra a 5 de Junho de 2012 às 17:18
Boa tarde Jorge e obrigada pelo comentário.

Digo ao Ludgero, sim. Vai ficar contente.
De qualquer maneira, é provável que o próprio leia o seu comentário.


De ludgero s a 5 de Junho de 2012 às 21:53
Olá Jorge.
Antes de mais, surpreende-me vivamente que a sua filha de doze anos tenha lido o meu livro, e sobretudo, tecido apreciações sobre a leitura.
Contudo, nem me devia admirar por aí além depois de me ter deleitado na sublime poesia que a dotada menina escreveu.
Especialmente para ela, vou enviar-lhe o meu segundo romance.

Um Abraço


De golimix a 5 de Junho de 2012 às 18:21
Obrigada pelo convite. =)
Conhece o senhor Ludgero? Gostava de o conhecer, talvez quando for ao Porto com mais calma.
Gostei das suas peripécias.
Ler é de facto um acto especial e que nos Leva a outros mundos. Acontece-me muitas vezes iniciar uma conversa só porque tenho um determinado livro na mão.



De ludgero s a 5 de Junho de 2012 às 21:57
Olá golimix.
Será um prazer, o que já poderia ter acontecido, não fosse o tal imponderável.
Ainda não desisti da decifração do tal L.
eheh...
Cordiais saudações.


De golimix a 6 de Junho de 2012 às 16:14
Olá!
Hummm... o L =)

Não é nada de especial vai ver ;)



De numadeletra a 6 de Junho de 2012 às 09:18
Olá golimix,

Sim, conheço o Ludgero. É uma simpatia.

Ainda bem que gostou desta peripécia que partlhei. Tenho outras, ligadas a livros. Esta está entre as minhas predilectas.

É verdade que um livro na mão pode desencadear muitas histórias.

E já viu que um livro na mão de um desconhecido, mesmo à distância faz prever um pouco do que essa pessoa é?


De Morangos Azedos a 5 de Junho de 2012 às 19:20
Olá, tudo certo?
Que história gostosa de ler. engraçado imaginar isso acontecendo mesmo.
Deu até vontade de ler o livro. Sabe onde acho em Salvador?

ps. desculpa a demora em aparecer por aqui, mas o destino resolveu sacanear e as 3 autoras ficaram um bom tempo sem poder entrar.


De numadeletra a 6 de Junho de 2012 às 09:34
Olá Morangos Azedos,

Tudo certo, obrigada!

Que bom que esta minha peripécia o divertiu e até o fez ter vontade de ler o livro associado a ela.

Francamente não sei onde é possível adquiri-lo, muito menos no Brasil, no entanto fiz uma pesquisa e encontrei este site que o vende:

http://www.wook.pt/ficha/o-perfume-de-savana/a/id/1421984

Talvez façam entregas em Salvador.

Obrigada pela visita... E volte sempre


De S* a 5 de Junho de 2012 às 19:31
Ainda só li as primeiras dezenas de páginas mas posso garantir que é um livro apaixonante, com uma escrita sedutora e envolvente. Transmite a alma de África, transmite-nos aquelas sensações quentes, o calor humano, o valor do amor.

É impossível não sorrir ao reparar na forma como este livro, escrito por alguém tão especial, criou momentos tão giros e intrigantes como os aqui descritos. :)


De ludgero s a 5 de Junho de 2012 às 22:20
Olá S*
Olha! O valor do amor pode ser muito, pouco ou nenhum. Tudo depende de quem o dá e de quem o recebe.
Se for sincero, aceite e retribuído da mesma maneira, então tem valor e será indubitavelmente, muito.
Se for para satisfação de um desejo ou obsessiva teimosia, então será pouco; muito pouco, quase nenhum..
Se for precedido de uma conveniência ou concretização de um objectivo, então não será nenhum não obstante a parte falsa jurar a pés juntos amor eterno.
Eheh...
Cordiais saudações


De numadeletra a 6 de Junho de 2012 às 09:42
É mesmo, S*!... Espero que este livro continue a proporcionar-lhe bons momentos de leitura! E, quem sabe também lhe trará alguma peripécia engraçada.


De ludgero s a 5 de Junho de 2012 às 22:33
Olá numadeletra.
Fiquei deveras surpreendido com o teor deste post, que de todo não esperava.
Agradavelmente surpreendido, queria dizer.
Que mais posso dizer? Olhe! Nada!
Agradecer-lhe a simpatia e atenção, pelo menos..., acho.
Muito obrigado e que o seu espaço tenha muito sucesso.
Cordiais saudações


De numadeletra a 6 de Junho de 2012 às 09:49
Eu é que agradeço, Ludgero.
Bem haja!


De Mariana a 6 de Junho de 2012 às 02:09
esse livro despertou-me a curiosidade e gostava de o ler mas não sei onde comprá-lo porque já perguntei por ele e ninguém me sabe informar.
Se a numa de letra souber agradecia que me informasse.
Muito obrigada
Bjn.;)

Mariana


De numadeletra a 6 de Junho de 2012 às 09:56
Olá Mariana,

Como tive oportunidade de dizer ao Morangos Azedos no comentário acima, actualmente desconheço os locais “físicos” de venda deste livro.
No entanto, encontrei este site que o vende:

http://www.wook.pt/ficha/o-perfume-de-savana/a/id/1421984

Obrigada e boa sorte :-)



De Reinaldo a 11 de Julho de 2012 às 21:58
Oi, acabo de ler agora sobre a viagem que me permitiu estar a ler o "perfume de Savana".
As mulheres lembram-se de tudo.....anotam tudo no HD....hehehe.
Um abraço.....


De numadeletra a 12 de Julho de 2012 às 14:37
Eis que a história narrada neste artigo tem o seu desfecho:

- O livro em torno da narrativa chega finalmente às mãos de Reinaldo, o personagem principal;

- Reinaldo é surpreendido pelo confronto da própria história que protagonizou, aqui contada pela narradora e personagem principal numadeletra.

(Adoro finais felizes :-)

Um abraço


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